Querido Avô
“ Avô que ficou” Hoje volto a pensar em ti, não apenas com saudade, mas com aquela lucidez que o tempo traz , a que nos permite ver para além das memórias doces e perceber as sombras que também fizeram parte da tua história. Cresci ao teu lado sem entender metade do que se passava à minha volta. Era criança, e como todas as crianças, só queria que chegassem os dias festivos para sentir aquele barulho de família reunida. Só mais tarde percebi que tu esperavas o mesmo, talvez até mais do que eu. Esperavas que os filhos e os netos viessem até ti, não por obrigação, mas por reconhecimento. Por gratidão, por respeito. E os que vinham eram sempre os mesmos... os outros nunca vinham! Hoje entendo melhor o peso disso. Tu e a avó, essa mulher dura, de quem só conheço histórias, trabalharam duramente. Construíram um pequeno império à força de sacrifício, suor e teimosia. Eram gente da velha guarda, moldada pela necessidade, pela dureza da vida, pela ideia de que o amor se prova com trabalho e nã...