Querido Avô

Avô que ficou”

Hoje volto a pensar em ti, não apenas com saudade, mas com aquela lucidez que o tempo traz , a que nos permite ver para além das memórias doces e perceber as sombras que também fizeram parte da tua história.

Cresci ao teu lado sem entender metade do que se passava à minha volta. Era criança, e como todas as crianças, só queria que chegassem os dias festivos para sentir aquele barulho de família reunida. Só mais tarde percebi que tu esperavas o mesmo, talvez até mais do que eu. Esperavas que os filhos e os netos viessem até ti, não por obrigação, mas por reconhecimento. Por gratidão, por respeito. E os que vinham eram sempre os mesmos... os outros nunca vinham!

Hoje entendo melhor o peso disso.

Tu e a avó, essa mulher dura, de quem só conheço histórias, trabalharam duramente. Construíram um pequeno império à força de sacrifício, suor e teimosia. Eram gente da velha guarda, moldada pela necessidade, pela dureza da vida, pela ideia de que o amor se prova com trabalho e não com palavras. Nunca ensinaram ternura, ensinaram a sobreviver.

Foi isso que sempre fizeste, foste para longe, para além-fronteiras, como o pai viria a fazer mais tarde. Mas tu tiveste a coragem, a destreza e a sorte de regressar com algo nas mãos: o pé de meia que te permitiu adquirir património, entre os quais, construir a casa onde acabaste por ficar , e onde, ironicamente, foste-te sentindo cada vez mais sozinho.

Não sei se te sentias culpado, se tinhas consciência das tuas falhas, talvez, mas não as verbalizavas. Tinhas orgulho no que conquistaste e esperavas que os teus filhos reconhecessem isso. Esperavas que viessem até ti como filhos agradecidos. E nem o que estudou te deu isso. Hoje sei que te doeu. Sei que te feriu mais do que alguma vez admitiste, mas também sei que tinhas orgulho nele, era o teu “Dr.”.

Connosco, tuas netas, foste diferente. Talvez porque o tempo te tinha amaciado. Talvez porque, desiludido com os filhos, encontraste em nós uma segunda oportunidade. Ou talvez porque, no fundo, sempre tiveste mais ternura do que mostravas.

Lembro-me da sopa de alho que só tu sabias fazer. Aquele cheiro quente que enchia a casa sabia a cuidado, já nos confortava antes mesmo de a provarmos. E lembro-me de ti a dar-nos a sopa à boca. Esses momentos ficaram guardados em mim como um lugar seguro onde volto sempre.

Recordo também as traquinices, aquelas brincadeiras de crianças em que, sem maldade, gozávamos contigo por já seres velhote. Ríamos das tuas manias, fazíamos pequenas malandrices só para te arreliares. E tu, porque a paciência não era infinita, corrias atrás de nós com a toalha da cozinha em riste, danado enquanto nos escondíamos debaixo da mesa da cozinha velha. Resmungavas, bufavas, prometias que nos havias de apanhar…( ai se vos apanho!) mas logo a seguir, porque sabias que a infância tem dessas coisas, chamavas com a tua voz firme: “A sopa está a arrefecer, ó magarefes.” Bocados de vida que hoje entendo como amor, desajeitado talvez, mas tão verdadeiro.

Havia ainda aquele teu ritual de comprar o jornal O Primeiro de Janeiro. Entregavas-nos as páginas para vermos os bonecos, e eu nunca vou esquecer a publicação do Príncipe Valente. Pequenos gestos que, sem o saberes, nos faziam sentir vistas, lembradas, importantes. Gestos simples que, agora, reconheço como a tua forma silenciosa de cuidar.

E aquela tua pergunta, meio séria, meio brincadeira: “Será que és tu que me vais levar flores ao cemitério?” Na altura eu ria, sem entender. Hoje sorrio, porque percebo que pedias apenas para não seres esquecido.

E não foste.

Foste o avô que ficou. O que estava presente quando os outros não podiam, o que ralhava, cozinhava, protegia, ensinava. O que, mesmo com as tuas imperfeições, deu tudo o que tinha para dar. O que esperava, ano após ano, que a casa que construíste com tanto esforço se enchesse de vida. E que sofria quando isso não acontecia.

Hoje escrevo-te para te agradecer. Não por teres sido perfeito, não foste, e ninguém precisava que fosses, mas por teres sido inteiro. Por teres sido porto de abrigo quando eu nem sabia que precisava de um. Por teres preenchido ausências com a tua presença, por teres sido, simplesmente, tu.

Levo-te comigo em cada gesto de coragem, em cada passo que dou com o coração mais seguro. Porque muito do que sou vem de ti, da tua força, da tua teimosia, da tua forma silenciosa de amar.

E mesmo que o tempo passe, há memórias que não se apagam: o cheiro da tua sopa, o teu ar malandro ou zangado, a tua voz a chamar-nos para a mesa, e a certeza de que, à tua maneira, me amaste como sabias.

Com todo o carinho, A tua neta. (mf.)



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